sábado, 25 de março de 2017

O perigoso método usado por lutadores de MMA para perder 7 kg em um dia

Deitado sobre uma toalha no chão, ao lado de uma balança, o lutador inglês Dean Garnett agoniza. Pálido e encharcado de suor, está em um processo radical de desidratação.
 
"É provavelmente a coisa mais perigosa que faço em todo o ano", afirma.
Ele se refere ao método que lutadores de MMA usam para perder cerca de 7 kg em menos de um dia.
O sacrifício ao qual Garnett se submete é conhecido como corte de peso e virou rotina para atletas que querem competir em categorias que exigem peso mais leve que o deles. E o processo é perigoso, uma vez que prevê uma perda acelerada de peso por desidratação extrema.
O lutador inglês normalmente pesa 69 kg. Para disputar uma competição como peso galo, porém, a balança precisa registrar 61,8 kg quando ele subir em cima dela. Para atingir a marca, Garnett tem apenas 19 horas.
O risco de tal método é tamanho que neste mês o russo Khabib Nurmagomedov, um dos protagonistas principais torneios de MMA - o Ultimate Fighting Championship - precisou ser levado às pressas para o hospital.
Em 2013, o lutador brasileiro Leandro "Feijão" Souza morreu no dia da pesagem, após sofrer um infarto quando estava na sauna. Ele havia tomado diuréticos e tentava perder 15 quilos em uma semana.
Há dois anos, o chinês Yang Jian Bing, de 21 anos, também sofreu um ataque cardíaco e morreu como consequência do corte de peso.
Em janeiro, o site UOL narrou em detalhes todo o sofrimento de Acácio "Pequeno" dos Santos, de 1m94 de altura, para perder 2,7 kg em cinco horas. O brasileiro se hospedou num motel para usar o ar condicionado elevado a 28°C e uma banheira no processo de desidratação radical.
Antes, já havia tomado diurético e corrido uma hora vestindo moletom e com o corpo enrolado em uma capa de chuva e em um plástico de congelar legumes.
No MMA é assim. Não importa onde nem quem está lutando. Nem mesmo a popularidade do esporte, que ganhou adeptos e torcedores na última década, foi suficiente para regular o agonizante método de corte de peso a que a maioria dos lutadores se submete.

Sangue

Ben Crighton, do Centro de Saúde Pública da Universidade John Moores, de Liverpool, supervisionou o sofrimento do lutador britânico para estudar as consequências em longo prazo para a saúde dos que se submetem ao processo radical de perda de peso.
Por meio de amostras de sangue, extraídas de forma contínua, Crighton foi medindo os níveis de enzimas que podem gerar danos irreversíveis ao fígado e aos rins.
"Os lutadores de MMA estão perdendo mais peso que em qualquer outro esporte de combate", observa Crighton.
O especialista explica que a maioria desses atletas controla o próprio peso durante as semanas de treinamento, mas nos últimos dias eles são obrigados a atingir o peso limite permitido para disputar determinada categoria.
A primeira coisa que deixam de ingerir são carboidratos, disse o especialista ao portal JOE. Com isso, o corpo perde glicogênio muscular e espera-se que também perca água associada a essa complexa molécula - para cada grama de glicogênio, o corpo armazena de 3 a 4 gramas de água.
Em seguida, preparam o corpo tomando muita água durante vários dias - de 9 a 12 litros diários - e deixam de fazê-lo um dia antes da pesagem final para a luta.

Suar e secar

Durante as 24 horas antes da pesagem, não bebem nem comem absolutamente nada. A partir desse momento, dá-se início à fase de expulsão - nada mais pode entrar no organismo. "Qualquer coisa que sai do meu corpo agora - urina, fezes, suor - é peso perdido", explica.
Também é preciso reduzir o consumo de sal, uma vez que o corpo tende a reter líquido com sódio.
"Não há uma pesquisa que diga que essa é a melhor forma, mas (a desidratação radical) segue sendo o método mais comum", afirma Crighton.
Esse processo é potencializado com o suor forçado por banhos de água quente, sauna e uso de roupa térmica.
Para perder 10% do seu peso em menos de um dia, o lutador inglês se submete a uma longa e cansativa luta. Passa por um ciclo de saunas e banhos quentes para expulsar cada gota de água do corpo.
Quando não está no banho ou na sauna, Dean Garnett está estirado no chão de um quarto de hotel, enrolado em lençóis e edredons. Parece estar desfalecido, à espera do enterro.
Mastiga cubos de gelo para tirar a saliva da boca e os cospe. É preciso cuidado para não engolir nada - água é igual a mais peso.
"Não estou muito longe da morte", afirma o lutador ao ser questionado sobre como se sente.

Parte da luta

Danny Roberts já lutou no UFC e conhece bem esse processo de corte de peso.
Costumava pesar 88 kg, mas a balança registrou 77 kg quando competiu contra Dominique Steele no UFC 197.
Ele sabe que essa perda de peso extrema é um processo pelo qual lutadores passam de três a quatro vezes por ano, a depender do que o corpo é capaz de suportar.
Garnett, que até o momento permanece invicto em sua carreira como lutador profissional, se preocupa com os efeitos dessa desidratação radical à saúde em longo prazo. Mas diz estar consciente de que é um dos sacrifícios necessários para triunfar no ringue e brilhar no esporte.
Uma das queixas do inglês é que há poucas divisões, e por isso os lutadores são obrigados a perder ou aumentar o próprio peso de maneira dramática para poder lutar o máximo possível.
Garnett conseguiu perder os tais sete quilos que precisava. Logo depois da luta, os recuperou quase que instantaneamente, já no dia seguinte.
Esse foi o caminho que ele escolheu para tentar melhorar de vida. O problema é que o método radical pode a encurtar.
Os exames feitos pelo pesquisador da universidade em Liverpool indicaram aumento dos níveis de enzima no organismo de Garnett. Mas Crighton observa serem necessários mais estudos com outros lutadores para se chegar a um padrão geral.
 
Notícia publicada na BBC Brasil, em 15 de março de 2017.

Claudia Sampaio* comenta

Buscar um sonho! Dinheiro e luxo! É o que a maioria das pessoas que assiste as lutas transmitidas pelos veículos de comunicação imagina. Sim, para uma parte dos lutadores, ou melhor, a minoria; para a maioria deles, o desafio é enorme!
“Boxe, kickboxing, jiu-jitsu, artes marciais mistas (MMA) e outras formas de lutas têm sido alguns dos esportes mais populares há décadas. Tornar-se um lutador profissional requer anos de treinamento intensivo em uma ou mais modalidades de luta, assim como construir uma reputação como lutador e manter o mais alto nível de habilidades de combate durante as lutas.”
Percebe-se que aqui no Brasil, atletas passam por desafios desumanos: falta de dinheiro, patrocínio para questões básicas de um lutador. É uma jornada difícil e requer empenho, além de sorte. Histórias como a de “Acácio Pequeno Santos” se repetem pelo mundo afora.
Isto ocorre porque os competidores são separados segundo o peso e é comum lutarem em divisões menores que sua própria constituição física. “Atletas que praticam esportes com categorias por quilos deveriam ficar mais próximos de um peso e composição corporal que possam ser mantidos ao longo do ano, não comprometendo a força, potência, velocidade, reflexo e, acima de tudo, a saúde. Não deve ser feito por indivíduos "normais" sem qualquer acompanhamento. Os riscos são ainda maiores e às vezes irreversíveis” - explicou a nutricionista Cristiane Perroni, especialista do Eu Atleta, sobre a dieta dos lutadores.
É certo que é da natureza humana o desejo de destacar-se, de sobressair-se por algo que as outras pessoas não têm, porém maltratar o corpo em busca de dinheiro e de promoção social é objeto da cobiça, da vaidade e do orgulho; lástimas que devemos combater na busca da nossa evolução espiritual.
A Doutrina Espírita nos ensina que estamos em um mundo de expiação e provas e que Deus vai ministrando seus ensinamentos e medicamentos a cada um de seus filhos, doentes ainda, no orgulho e no egoísmo. Vejamos o que nos esclarece Allan Kardec em seu comentário à pergunta 148 de O Livro dos Espíritos:
“Por uma aberração da inteligência, há pessoas que não veem nos seres orgânicos nada mais que a ação da matéria, e a esta atribuem todos os nossos atos. Não veem no corpo humano senão a máquina elétrica; não estudaram o mecanismo da vida senão no funcionamento dos órgãos; viram-na extinguir-se muitas vezes pela ruptura de um fio, e nada mais perceberam além desse fio; procuraram descobrir o que restava, e como não encontraram mais do que a matéria inerte, não viram a alma escapar-se e nem puderam pegá-la, concluíram que tudo estava nas propriedades da matéria, e que, portanto, após a morte, o pensamento se reduz ao nada. Triste consequência, se assim fosse, porque então o bem e o mal não teriam sentido; o homem estaria certo ao não pensar senão em si mesmo e ao colocar acima de tudo a satisfação dos prazeres materiais...”
Jorge Hessen nos ensina: “...já que, sendo o corpo físico (templo da alma) um consentimento divino para nossas provas e expiações, devemos mantê-lo dignamente protegido e saudável.”
“É fundamental cuidar do corpo, no entanto é muito mais importante ter os olhos voltados para algo muito além da vida na Terra” – Momento Espírita.

Fontes de pesquisa:

 
* Claudia Sampaio é espírita e colaboradora do Espiritismo.net.

A menina abandonada ao nascer que descobriu que seu ídolo famoso era sua irmã


Vibeke Venema
BBC World Service

Enrolada em uma faixa de seda vermelha presa no teto, Jennifer Bricker, de 30 anos, sobe até o alto e gira de acordo com a música. Ela joga a cabeça para trás, estende os braços fortes e se balança pendurada pelo pescoço - um movimento que fica ainda mais impressionante pelo fato de ela não ter pernas.

Mas a acrobata, trapezista e ginasta nunca se deixou paralisar por isso. Aos 11 anos, já era uma campeã da ginástica, esporte pelo qual se apaixonou ao ver Dominique Moceanu ganhar uma medalha de ouro olímpica para os Estados Unidos em 1996.

Ela não sabia, porém, que as duas tinham muito mais em comum do que o talento de atleta.

Jennifer tinha poucos meses quando foi adotada por Sharon e Gerald Bricker. Era um bebê com grandes olhos castanhos, um sorriso radiante e muita energia.

Quando o médico disse ao casal que poderia transportá-la em uma espécie de balde, eles rejeitaram a ideia.

A menina logo aprendeu a andar - e correr - usando as mãos e o quadril. Cresceu sem medo, subindo em árvores e pulando no trampolim com os três irmãos mais velhos.

"Eles me incentivavam a pular de todos os lugares, e as pessoas ficavam apavoradas", conta.

Aos três anos, ela recebeu próteses para as pernas, mas nunca as usava - se movimentava melhor sem elas.

Na escola, adorava todos os jogos com bola.

"Eu participava como todo mundo", diz Jennifer. "Meus pais não me tratavam diferente e por isso eu não tinha ideia de que era diferente. Eu sabia que não tinha pernas, mas isso não me impedia de fazer o que queria."

Um livro (quase) aberto

Sharon e Gerald Bricker sempre falaram abertamente sobre a adoção.

"Eu sabia que era romena e que possivelmente tinha sido entregue para adoção porque não tinha pernas", diz Jennifer.

Os pais adotivos também a encorajaram a compreender a família biológica, imigrantes romenos que abriram mão dela no dia em que nascera.

"Você não sabe o que se passava na vida deles. Eles eram de um país diferente. Tinham uma mentalidade diferente", diziam para a menina. Ao mesmo tempo, procuravam fazê-la sentir-se amada e querida.

Jennifer cresceu numa pequena cidade do Estado americano de Illinois. A primeira vez em que viu alguém vindo da Romênia foi na TV. E durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, nos EUA, em 1996.

Ela adorava ver a equipe de ginástica feminina dos Estados Unidos e, especialmente, uma atleta: Dominique Moceanu, então com 14 anos.

A atleta era apenas seis anos mais velha que ela e, como lembra Jennifer, "muito pequena" também.

"Fui atraída por ela porque éramos parecidas e isso era muito importante para mim", diz hoje. "Ninguém achava que eu estava crescendo. Eu não conhecia outros romenos. Me via nela de tantas maneiras que aquilo era muito importante para mim."

Dominique Moceanu e a equipe feminina americana ganharam um ouro olímpico, e foi naquele momento que Jennifer decidiu ser também uma ginasta.

Campeã sem pernas

Ela se dedicou aos saltos acrobáticos, mas não queria que fizessem qualquer concessão por causa da sua deficiência.

"Assim, quando eu entro numa competição, sei que é para valer", diz.

Jennifer se lembra da surpresa do público ao vê-la: "Essa garota não tem pernas e está competindo?"

"Mas o amor, o apoio quando eu competia, eram maravilhosos", continua. "As pessoas aplaudem e torcem porque eu deixei claro que nenhuma exceção foi feita para mim - em nada."

Aos 10 anos, ela disputou os Jogos Olímpicos da Juventude. Aos 11, era campeã de ginástica tumbling - que consiste em dar saltos no decorrer de uma pista - pelo Estado de Illinois.

Jennifer continuou a acompanhar os altos e baixos de seu ídolo, que agora estava no noticiário por razões diferentes.

Em 1998, aos 17 anos, Dominique processou os próprios pais, acusando-os de esbanjar US$ 1 milhão (R$ 3,17 milhões em valores atuais) do que ela havia recebido após a vitória nos Jogos de Atlanta.

Durante o julgamento, surgiram notícias sobre o tratamento severo que ela recebia do pai.

Dominique ganhou a disputa e conseguiu assumir o controle das próprias finanças.

O segredo

Quando completou 16 anos, Jennifer perguntou à mãe adotiva se havia algo que ela não tinha lhe contado sobre a sua família biológica.

A adolescente não imaginava que a resposta fosse "sim" - os pais adotivos sempre haviam sido muito sinceros. Mas, para sua surpresa, a mãe disse que tinha algo importante a dizer.

Sharon pediu que a filha se sentasse e disse: "O sobrenome da sua família biológica era Moceanu".

Não havia dúvidas do que isso significava.

"Quando ouvi aquilo, pensei imediatamente: isso quer dizer que Dominique é minha irmã", lembra.

Os Bricker descobriram a família original de Jennifer por acaso: a adoção deveria ter sido totalmente fechada, mas os nomes dos pais biológicos da menina apareciam em alguns documentos.

Então, nos Jogos de 1996, as câmeras de TV mostraram os pais de Dominique - Camelia e Dumitru - na plateia. Quando os nomes deles apareceram na tela, o casal se deu conta que estava vendo os pais de Jennifer.

Mas eles decidiram não dizer nada até a filha estar mais velha.

Quando soube da verdade, Jennifer quis entrar em contato com Dominique - mas resolveu fazer isso da melhor maneira possível.

"Eu não podia simplesmente ligar e dizer: 'oi, sou sua irmã'. Eu não queria que ela me achasse louca."

Ela então pediu a um tio, que é detetive particular, para entrar em contato com seus pais biológicos.

Camelia e Dumitru não negaram que tivessem dado a filha para adoção, mas nunca mais atenderam os telefonemas.

"Ficou claro que eles queriam continuar me mantendo em segredo", diz.

A carta

Quatro anos depois, Jennifer escreveu uma carta para a irmã, contando sua história e como Dominique a tinha inspirado a ser uma ginasta também.

"Quase não pude acreditar. Você foi meu ídolo a vida inteira e, de repente, descobri que você era minha irmã!", escreveu na carta.

Ela mandou junto cópias de todos os documentos que tinha e muitas fotos - todas da cintura para cima.

"Instintivamente decidi não contar que não tinha pernas porque achei que seria um pouco demais", explica Jennifer.

"Pensei: ela já está descobrindo que tem uma irmã cuja existência ignorava. Vou esperar para contar sobre a falta de pernas depois."

Na época, Dominique tinha 26 anos e não competia mais profissionalmente. Foi uma fase movimentada na sua vida.

Ela se casara com um atleta e esperava o primeiro filho. Também tentava terminar as provas da universidade antes do parto.

No dia 10 de dezembro de 2007, depois de fazer uma prova de estatística, Dominique dirigiu até o correio para buscar um envelope.

Ela o abriu no carro e a primeira coisa que viu foram documentos com a assinatura dos seus pais. Aquilo chamou sua atenção.

Mas logo viu várias fotos de uma garota que se parecia muito com sua irmã mais nova, Christina. "A semelhança era incrível", diz.

Por último, Dominique leu a carta impecavelmente datilografada e uma frase saltou diante dos seus olhos: "Meu sobrenome biológico é Moceanu".

O choque

"Aquela carta foi o maior choque da minha vida, eu nunca vou esquecer", diz Dominique.

A ginasta precisava saber se aquilo era verdade.

Ainda no carro, telefonou para a mãe e a acordou com a pergunta: "Você deu uma filha para adoção em 1987"?

A mãe caiu em prantos - disse "sim" e mais nada.

"Partiu meu coração porque ela havia guardado aquele segredo por tantos anos e nunca pudera lidar com ele", continua Dominique.

As semanas seguintes foram uma montanha-russa de emoções.

Dominique escreveu para Jennifer pedindo um tempo para processar a novidade e explicando que estava prestes a ter um bebê.

"Eu precisava de respostas para minhas próprias perguntas e descobrir como aquilo podia ter acontecido", lembra Dominique.

Na época, o pai estava muito doente e era difícil se comunicar com ele, mas Dominique descobriu que havia sido dele a decisão de dar Jennifer ainda no hospital. Ele temia não ter dinheiro para pagar o tratamento médico.

A mãe não foi consultada e nunca teve a oportunidade de contar tudo às outras filhas.

A filha de Dominique nasceu no dia de Natal. Alguns dias depois, em 14 de janeiro, ela se sentiu pronta para telefonar para a irmã pela primeira vez.

Estava nervosa e tinha preparado um texto, mas a conversa fluiu rapidamente.

Então Jennifer disparou: "Você sabe que eu não tenho as pernas, né?"

Dominique ficou muda. Como podia ser?

As três irmãs

"Ela tinha me dito que era minha fã, que eu a fizera começar na ginástica e achei aquilo lindo. Mas nunca imaginei que ela fazia tudo aquilo sem ter pernas", conta Dominique.

Em maio de 2008, Dominique, Jennifer e a caçula Christina se encontraram pela primeira vez. Foi em Ohio, onde a ex-campeã olímpica vivia.

"Foi surreal, como um sonho", diz Jennifer. "Mas por outro lado foi muito natural. O nosso DNA estava muito claro. Ao ver a minha irmã mais nova, parecia que eu estava diante do espelho."

As irmãs se encantaram com tudo o que tinham em comum - o jeito de rir e até certos gestos -, mas cada uma tinha uma história bem distinta.

"Elas não tiveram o amor e o apoio que eu tive. Passaram por momentos tumultuados, de abusos e segredos. Não tiveram uma infância fácil", diz Jennifer.

O exemplo de Nadia Comaneci

O casal Moceanu - que também havia se dedicado à ginástica - foi para os EUA em 1981, fugindo do regime comunista de Nicolai Ceausescu na Romênia.

Dominique nasceu logo depois que eles imigraram.

O sonho do casal era que ela fosse a próxima Nadia Comaneci, o fenômeno da ginástica romena que encantou o mundo na Olimpíada de 1976, aos 14 anos.

Quando a filha tinha apenas seis meses, eles a penduraram no varal de roupas para testar sua força - o bebê ficou segurando até a corda arrebentar.

"Para eles, aquele era o sinal de que eu seria uma ótima ginasta", diz Dominique.

Essa era uma história que seu pai, uma figura autoritária que exercia poder sobre a família, adorava contar.

Mas ela lembra que era constantemente humilhada pelos pais por causa de seu peso e por qualquer falha nas suas apresentações.

"Acreditava-se que esses eram os métodos para fazer você vencer", explica. "Mas são coisas que provocam estragos na autoestima quando você é uma pré-adolescente."

Também havia a ameaça de castigo físico se a sua performance não fosse impecável.

"Nós concordamos que não teria sido um bom ambiente para eu crescer", diz Jennifer.

"Meu pais nunca se aproximaram de crianças com deficiências", continua Dominique.

Conhecendo a mãe biológica

O pai morreu antes de Jennifer encontrá-lo. Mas em janeiro de 2010, aos 22 anos, ela viu a mãe biológica, Camelia, pela primeira vez.

"Lembro disso em câmera lenta", diz a jovem.

"Ela estava usando um gorro de peles típico do Leste Europeu", recorda. "Ela não acreditava em como eu me parecia com minhas irmãs e então, instintivamente, começou a falar romeno comigo."

Dominique teve de traduzir tudo para a mãe, que estava surpresa demais para voltar a falar inglês.

As duas se abraçaram e Jennifer mostrou os vídeos das suas apresentações, inclusive da que fizera em um show da cantora Britney Spears.

"Ela estava maravilhada, sabia que nunca poderia ter me dado uma vida assim", diz Jennifer.

A jovem diz que não sentiu raiva - algo que ela credita aos pais adotivos. "Eles me deram liberdade para não ser uma pessoa amarga."

Ela diz que seu coração foi tocado por Camelia.

"Minha mãe biológica foi vítima de um casamento abusivo. Ela não teve uma vida fácil - e não estou procurando uma desculpa, simplesmente é a verdade", acrescenta.

As irmãs moram em lugares diferentes, mas sempre que podem se encontram. Jennifer agora viaja pelo mundo dando palestras motivacionais e fazendo shows de acrobacia aérea.

"Ela é maravilhosa, você pode ver a paixão dela quando está lá no ar", afirma Dominique. "Como irmã mais velha, tenho orgulho - ela está realizando seus sonhos."

Notícia publicada na BBC Brasil, em 25 de janeiro de 2017.

Jorge Hessen* comenta

Sob o enfoque espírita, efetivamente, muitas afeições terrenas são condições construídas, geralmente nas preexistências, através dos laços permanentes de afinidades espirituais, que se estabelecem entre seres, que comungam das mesmas inclinações psicológicas, em estado semelhante de evolução intelecto-moral.

Portanto, podemos analisar o tema pelo prisma das almas “afins” que reencarnam na mesma família. Sabemos que a reencarnação é um mecanismo extremamente complexo. Suas variáveis vinculam-se ao estágio espiritual de cada reencarnante, considerando-se as obrigações de aprendizagem de todos os espíritos envolvidos para a convivência na Terra. Quando o espírito detém boa estrutura moral, pode esquematizar sua reencarnação junto dos seres “afins”, sob a supervisão dos Benfeitores do além.

Na dimensão espiritual, estando libertos das paixões que nos ligaram na Terra, nos atraímos e agrupamos em famílias mais amplas, unidos por sentimentos sinceros, tendo em vista o aperfeiçoamento de todos e alegrando-nos com as conquistas de cada um dos nossos entes queridos em cada regresso ao além-túmulo, após mais uma vida na Terra, plena de lutas e provações experimentadas e ultrapassadas.

No conjunto das reencarnações, “se uns espíritos encarnam e outros permanecem no além, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam “livres” [no além] velam pelos que se acham em “cativeiro” [no corpo físico]. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento.”(1)

É bem verdade que dois Espíritos, que se afeiçoam, naturalmente se procuram um ao outro, nas suas caminhadas. Não ignoramos que entre os seres humanos há ligações afetivas ainda indecifráveis nos seus códigos misteriosos. O espectro do magnetismo é o auxiliar destas ligações, que futuramente compreenderemos melhor.”(2)

Os personagens mencionados nesta narrativa são incontestavelmente espíritos afins que se juntaram pelas leis da atração e amam estar juntos. Não obstante, nem todos os espíritos “afins” tenham necessariamente que se ter conhecido numa vida anterior, pois eles se atraem magneticamente por inclinações semelhantes, isso frequentemente acontece.

“A afeição que existe entre pessoas [especialmente parentes] são um índice da simpatia anterior que as aproximou…”(3) Desta forma, se todas as afeições forem purificadas “acima dos laços do sangue, o sagrado instituto da família se perpetuará no Infinito, através dos laços imperecíveis do Espírito.”(4)

Referências bibliográficas:

(1) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. IV, item 18, RJ: Ed. FEB, 1977;

(2) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 388, RJ: Ed. FEB, 2002;

(3) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. IV, item 19, RJ: Ed. FEB, 1977;

(4) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, questão 175, RJ: Ed. FEB, 2001.

* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.

 

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